O Grande Gatsby (sem spoiler)

Imagem: Família de imigrantes olhando NY da ilha Ellis (1925)

Vivemos um período de tormentas, tempos de cansaço que  nos afastam do que é trabalhoso, nós até procuramos histórias que nos conectem à realidade, mas nos falta energia para o estresse de buscá-las na arte, em textos com uma estrutura complexa.
Era assim que eu pretendia começar esse post, afinal O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald é considerado, com razão, uma dessas obras de literatura arte que vai além de apenas nos trazer uma trama emocionante, rica, inesperada ou emocionante. É uma obra que nos surpreende também pela linha narrativa e pelo próprio uso da palavra.
No entanto percebi que isso não é justo e é bem provável que as pessoas estejam mais dispostas a se expor a arte do que no passado, inclusive em 1925 quando O Grande Gatsby foi publicado.
Por outro lado nem sempre estamos “na vibe” de uma leitura mais artística que nos desafie com a própria forma, logo deixo aqui o aviso que esse livro é melhor aproveitado se estamos com disposição para ir além da história.
Julgando pelo que ouvi falar da obra até hoje receio que muita gente perca alguns dos aspectos mais interessantes ao se fixar apenas no primeiro plano da trama e das personagens.
Minha primeira surpresa veio apenas no meio do livro, até lá vi apenas um texto bem trabalhado e personagens cativantes. Na segunda metade vamos percebendo camadas e mais camadas nas personalidades, no entanto muito disso está lá sem ser escrito claramente, está nas lacunas, está no significado das transformações bruscas das personalidades que achávamos que havíamos compreendido.
Veja bem, não pense que se trata de uma história em aberto, tudo fica muito claro se nos satisfazemos com nossos estereótipos e as expectativas que eles produzem, mas se insistirmos em explorar mais profundamente as personagens nos descobrimos diante de uma história capaz de se desdobrar em significados a cada nova reflexão.
E, finalmente, está de parabéns a equipe editorial:

Tradução: Alice Klesck
Preparação de textos: Márcia Duarte
Revisão: Carolina Costa

Nolite te bastardes carborundorum

Imagem: Provável retrato da duquesa de Villar e sua irmã – 1594

Antônio observa o quadro das irmãs intrigado. Inclina a cabeça para a direita, depois para a esquerda, dá um ou dois passos atrás, estica o pescoço na direção da imagem.
– Cara, que treco desconfortável! Elas seriam irmãs, né? Tá escrito ali na plaquinha. Eu pensava que as pessoas tinham mais moral na idade média com todo aquele lance de religião e tal. Século XVI é idade média, né? Ou já é feudalismo? A sociedade já estava perdendo a moral com o… o capitalismo? Tô confuso.
Jorge está ao lado, nariz colado no celular por causa dos muitos graus de miopia e do óculos que ele acabou de perder, está procurando um lugar onde fazer um novo com urgência.
– Nolite te bastardes carborundorum – Ele deixa escapar como quem faz uma soma complicada mentalmente.
– Hã? Bastardos o quê, Jorge?
– “Não permita que os bastardos te carbonizem” ou algo assim, é um tipo de trocadilho linguístico que está em O Conto da Aia, da Margaret Atwood. Uma distopia bem perturbadora por parecer muito possível quando vemos a memória se apagando desse jeito aí que você mostrou, Antônio. Ainda outro dia um grupo de radicais conseguiu fechar uma exposição com imagens como essa. É assim que começa.
– Opa! Mas pera lá! Posso estar incomodado com a imagem, mas deixa ela aí para as pessoa verem e pensarem, certo? Bem… Se bem que do meu desconforto para o meu silêncio ou até apoio para um lance como esse que você disse, Jorge, é um fiapo de cabelo. Inclusive, pensa bem, o que uma pessoa ignorante pode pensar vendo um quadro desse? Que irmãs deviam ser lésbicas? Que era chique, sei lá?!
Jorge entrega o celular para o Antônio fazendo um gesto para que ele resolva o problema dos óculos, esfrega os olhos cansados do esforço. Antônio senta ao seu lado, puxa a mochila para baixo das pernas e solta um suspiro longo e profundo. Nossa energia é quase inesgotável aos vinte e dois anos, mas a viagem dos dois já dura 11 dias parando apenas nos trens, ônibus e breves paradas para comer, algumas vezes em pé. Os dois tem sede de cultura e é a primeira viagem internacional deles.
– Não consigo ver nem que quadro você estava olhando, Antônio! Me resta viajar pelos meus próprios devaneios guiado pelos seus olhos! – E solta sua risada característica, uma mistura de desafio diante do perigo e esperança.
Antônio é mais realista e está preocupado com o amigo, felizmente parece que há três óticas que prometem entregar óculos de grau em menos de 24h na cidade.
Enquanto salva os endereços e as rotas para chegar nelas aproveitando o wi-fi do museu, ele reflete sobre como somos pequenos diante da história da humanidade. Ele não faz ideia do contexto histórico daquele quadro. Não sabe se é uma crítica ou um elogio, se era visto como algo belo ou se estava envolto em uma trama de desafio da moral religiosa… Não… Esse tipo de desafio só viria uns 300 anos mais tarde… Ou teria sido no Iluminismo umas poucas décadas depois? Eram décadas ou séculos depois? Aliás desde quando Jorge tinha memória melhor que a dele?
– Fala sério, Jorge, você tá tão perdido com esse quadro quanto eu, né?
– Hahahahaha! O cego seu eu, mas você pelo jeito é o bobo! Se eu estivesse vendo o quadro certamente estaria tão perturbado quanto você! Mil quinhentos e noventa e quatro, diz a placa, certo? Nem imagino por que eles pintavam mulheres nuas se tocando nessa época!
A risada sonora faz várias cabeças se virarem para os dois. Antônio dá uma cotovelada em Jorge e um “shush”, mas ri também segurando a boca para tentar se controlar.
Baixando o som da voz e se aproximando do Jorge ele conta, como se fosse um segredo proibido.
– Ao fundo, todo escuro, tem um quadro, acho que com uma mulher, essa tá toda vestida costurando ou tricotando, não sei diferenciar. Olha… Tem uma ótica a meia hora de caminhada daqui, vamos lá?
– Por Odin! Vamos logo! Estou me sentindo em uma bolha mágica desfocada do mundo! Amaldiçoado sei lá por quê! … Tô exagerando?
– Um pouco, mas não sou eu que estou quase cego com mais de metade da viagem à frente ainda, né? Mas fico pensando em como deveriam se sentir as mulheres em 1594… Acho que para isso serve a arte, para registrar de alguma forma o tempo, para nos provocar a estudar o que passou e tentar entender do ponto de vista deles e reprocessar do nosso próprio ponto. E você tem razão, aliás até mesmo a arte contemporânea, por mais perturbadora que seja, precisa ser colocada em seu contexto. A nossa vida antes de depois… aliás, nossa visão do mundo antes dessa viagem já era totalmente outra!
– Mas apenas porque tentamos olhar para a viagem com os olhos da viagem que são os olhos das pessoas daqui, das de ontem, das de amanhã… Mas tem horas que dá uma angústia, Antônio, uma sensação que a humanidade caminha em vagões fechados onde não cabe mais de vinte anos e, quando alguém vai parar em outro vagão sem querer vai ter violência.
Os dois atravessam a porta para fora do museu e são recebidos pelo vasto céu azul e pelo calor generoso do Sol, uma brisa sussurra entre as torres e curvas do museu que testemunha a passagem da civilização há séculos e persistirá ainda, quem sabe? por milênios e seguem mais leves para a ótica salvadora.
 

O Conto da Aia – Handmaid's Tale de Margaret Atwood

Imagem: artigo da Margaret Atwood no NYT

Vamos falar do livro, certo? Ainda não assisti a série. E não haverá spoilers nesse texto.
Antes de mais nada Margaret Atwood é dessas pessoas que trata o texto como arte desde a forma como constrói a narrativa até as metáforas que introduz no texto passando pela ambientação e cuidado estético até mesmo com as palavras escolhidas. O Conto da Aia é um desses livros que nos obrigam a separar pelo menos duas categorias de escrita, a literária e a pop.
Vamos evitar o julgamento de valor das duas, certo? O aviso é apenas para ajudar na decisão caso você pense em ler: gosta de uma leitura que flui sem surpresas na forma? Então prepare seu espírito (ou seu viés) para ler esse livro! Gosta de trilhar os mistérios da linguagem em um texto que não reserva as surpresas apenas para a trama? Bem… Ainda assim é preciso preparar o espírito.
O Conto da Aia é uma obra tensa que nos dá uma sensação de sufoco constante, como se andássemos no meio da fumaça de um grande incêndio ou em uma distopia tão opressora que se emana das páginas diante de nos e nos cerca com um véu obscuro.
Talvez isso aconteça não apenas por causa da qualidade da escrita, mas também pela perturbadora proximidade e verossimilhança da história.
A narrativa segue uma linha mais ou menos contínua no tempo ainda que sejam as memórias da protagonista (o que já nos coloca em um suspense constante ao longo da leitura: se ela está contando suas memórias, onde estará agora?) intercalada com memórias mais antigas que nos contam como o mundo chegou até aquele ponto.
E o trajeto que levou a essa distopia realmente foi perturbadoramente bem traçado pela Margaret. Se você não ficar com medo de acordar no dia seguinte e descobrir que a mesma coisa aconteceu é porque você tem sorte de não ver algumas das facetas mais obscuras do mundo que elege alguém como Trump para liderar um dos países mais influentes do mundo.
Vale lembrar que o livro foi publicado em 1985 quando o cenário global que vivemos parecia impossível.
Uma das características que mais admiro nas boas obras é serem escritas para os personagens e não para os leitores e leitoras, quando elas não colocam o apelo comercial acima do tema como cartomantes charlatães empenhadas em nos dizer o que queremos ouvir para lhes dar dinheiro.
Isso torna nossa Aia, Moira, Luke e tantos outras pessoas que surgem na trama tão reais quanto as que conhecemos e que se envolveriam nos mesmos problemas caso uma sociedade como aquela acometesse a civilização.
Portanto não espere um tratamento nem muito delicado, nem muito cruel (algumas histórias recorrem a crueldade excessiva para nos conquistar pelo choque) o que você encontrará é uma distopia como talvez toda distopia deveria ser: assustadoramente próxima e possível.
Sobre o feminismo da obra.
É inevitável falar nisso, aliás é inevitável inserir o tema em praticamente qualquer consideração sobre a nossa cultura, sociedade e economia visto que a igualdade de gêneros está no centro das transformações que precisamos passar.
Francamente, vejo uma extrapolação ao feminismo nessa obra. No sentido que vai além dele e mergulha na questão da razão vs a loucura e em como a segunda pode subjugar a primeira pelo medo. Pelo menos por algum tempo. Um tempo que podem ser décadas e arrastar muitas vidas, criar crateras obscuras em nossa história que, felizmente, servem para nos lembrar dos horrores que podemos criar quando…
Exatamente: quando o quê?
O que realmente aconteceu naquela sociedade?
Vou deixar os detalhes para você descobrir lendo, mas creio que, em termos gerais, você concordará que é o mesmo que vem acontecendo com a nossa: uma disrupção entre as verdades a que estamos acostumados e novas verdades que estamos descobrindo ou construindo.
A civilização, em grande media, é a história da desconstrução e construção de verdades que quase sempre nos conduzem a mais diversidade e liberdades individuais, no entanto, em consequência, também é a história da perseguição da diversidade e dos direitos individuais.
Esse pode não ser o tema central de O Conto da Aia, mas é uma questão que está sob todas as questões de preconceito e de ódio e que também te inspirará durante a leitura.