Do ensino para surdos e a prova do ENEM

Imagem: Cristian Newman

O tema da redação do ENEM foi a educação para surdos.
Vi duas pessoas reclamando até agora, uma adolescente que fez a prova e um contato que pode ser qualificado como cientista político.
Temos que mostrar, em uma prova dessas, que entendemos qual foi o tema proposto, logo não podemos enveredar nossos parágrafos por caminhos tortuosos para falar da surdez crônica que aflige o nosso pensamento político, nossas reflexões morais por exemplo.
Temos que falar das dificuldades que uma pessoa com limitações auditivas enfrenta diariamente, tanto no sistema de ensino, quanto nas atividades cotidianas.
E o que sabe um adolescente sobre a surdez? A menos, claro, que tenha parentes ou sofra pessoalmente com esse problema.
Por isso mesmo o tema é uma boa oportunidade.
Nos permite descobrir, em nós mesmas, a surdez de imaginar que sabemos algo sobre o mundo da surdez: assumir que quase ninguém sofre com isso ou que muita gente sofre com isso (dependerá da nossa experiência pessoal); descobrir que nossa experiência pessoal também prejudica nossa audição da realidade dos outros e, consequentemente, da realidade “real”.
E, convenhamos, o tema também é oportuno porque; o que uma pessoa que escuta pode imaginar das dificuldades que uma não escuta enfrenta no sistema de ensino? É como a pessoa privilegiada que é surda para as dificuldades que o sistema construído para os privilegiados coloca diante de negros, mulheres, LGBTs, cegos…
Opa! Mas o tema são os que não escutam. Não os que não escutam como nossos políticos que já não ouvem mais a voz popular já que têm à disposição  ouvidos atentos nos corredores do poder que podem lhes garantir a sobrevivência política independente da voz das urnas, da voz pública… Poderíamos falar também das dificuldades dos mudos…
No entanto é dos ouvidos que temos que falar e, vejam vocês, eu sequer li o enunciado da redação do ENEM e já estou aqui, vários parágrafos dentro do assunto… Também estou como o surdo que se esforçou para ler os lábios ou esticou os olhos para o amigo ao lado que fazia anotações da aula e supôs que a matéria eram verbos transitivos indiretos quando na verdade era de história, sobre eleições indiretas e ditadura.
Nosso sistema de ensino está preparado para atender quem tem alguma dificuldade física? Certamente que não, ele sequer está preparado para nos guiar para longe das dificuldades cognitivas, aliás, até “periga” piorá-las ao colocar Terras Planas e pessoas feitas de barro no currículo de ciências.
O que precisamos, então, para não perder grandes mentes científicas e artísticas que lutam no sistema de ensino para avançar a despeito de não existir uma preocupação real em criar um ambiente que dê a quem ouve pouco (ou nada) as mesmas oportunidades de quem ouve tudo (e muitas vezes não entende nada ou apenas o que decidiu entender à revelia da lógica e da razão?).
O que precisamos, talvez, é aprender a ouvir. Não com a expectativa da outra pessoa parar de falar para que possamos despejar nossas ideias sem considerar o que estavam nos dizendo, mas com a atenção de quem busca construir opiniões (uma ideia, no caso, sendo como uma hipótese, muitas vezes sem qualquer conexão com fatos, e uma opinião sendo como uma teoria, construída sobre evidências e outras opiniões).
Porque, francamente, o mundo das pessoas com pouca audição ainda é muito negligenciado pela maioria de nós e somos poucos os que poderiam realmente escrever mais do que ideias sem conexão com os fatos.
Depois de escrever essa redação será minha vez de ir ao Google aprender sobre esse universo sem sons no qual, tenho certeza, sou quase cego.
 

O Grande Gatsby (sem spoiler)

Imagem: Família de imigrantes olhando NY da ilha Ellis (1925)

Vivemos um período de tormentas, tempos de cansaço que  nos afastam do que é trabalhoso, nós até procuramos histórias que nos conectem à realidade, mas nos falta energia para o estresse de buscá-las na arte, em textos com uma estrutura complexa.
Era assim que eu pretendia começar esse post, afinal O Grande Gatsby de Scott Fitzgerald é considerado, com razão, uma dessas obras de literatura arte que vai além de apenas nos trazer uma trama emocionante, rica, inesperada ou emocionante. É uma obra que nos surpreende também pela linha narrativa e pelo próprio uso da palavra.
No entanto percebi que isso não é justo e é bem provável que as pessoas estejam mais dispostas a se expor a arte do que no passado, inclusive em 1925 quando O Grande Gatsby foi publicado.
Por outro lado nem sempre estamos “na vibe” de uma leitura mais artística que nos desafie com a própria forma, logo deixo aqui o aviso que esse livro é melhor aproveitado se estamos com disposição para ir além da história.
Julgando pelo que ouvi falar da obra até hoje receio que muita gente perca alguns dos aspectos mais interessantes ao se fixar apenas no primeiro plano da trama e das personagens.
Minha primeira surpresa veio apenas no meio do livro, até lá vi apenas um texto bem trabalhado e personagens cativantes. Na segunda metade vamos percebendo camadas e mais camadas nas personalidades, no entanto muito disso está lá sem ser escrito claramente, está nas lacunas, está no significado das transformações bruscas das personalidades que achávamos que havíamos compreendido.
Veja bem, não pense que se trata de uma história em aberto, tudo fica muito claro se nos satisfazemos com nossos estereótipos e as expectativas que eles produzem, mas se insistirmos em explorar mais profundamente as personagens nos descobrimos diante de uma história capaz de se desdobrar em significados a cada nova reflexão.
E, finalmente, está de parabéns a equipe editorial:

Tradução: Alice Klesck
Preparação de textos: Márcia Duarte
Revisão: Carolina Costa

Nolite te bastardes carborundorum

Imagem: Provável retrato da duquesa de Villar e sua irmã – 1594

Antônio observa o quadro das irmãs intrigado. Inclina a cabeça para a direita, depois para a esquerda, dá um ou dois passos atrás, estica o pescoço na direção da imagem.
– Cara, que treco desconfortável! Elas seriam irmãs, né? Tá escrito ali na plaquinha. Eu pensava que as pessoas tinham mais moral na idade média com todo aquele lance de religião e tal. Século XVI é idade média, né? Ou já é feudalismo? A sociedade já estava perdendo a moral com o… o capitalismo? Tô confuso.
Jorge está ao lado, nariz colado no celular por causa dos muitos graus de miopia e do óculos que ele acabou de perder, está procurando um lugar onde fazer um novo com urgência.
– Nolite te bastardes carborundorum – Ele deixa escapar como quem faz uma soma complicada mentalmente.
– Hã? Bastardos o quê, Jorge?
– “Não permita que os bastardos te carbonizem” ou algo assim, é um tipo de trocadilho linguístico que está em O Conto da Aia, da Margaret Atwood. Uma distopia bem perturbadora por parecer muito possível quando vemos a memória se apagando desse jeito aí que você mostrou, Antônio. Ainda outro dia um grupo de radicais conseguiu fechar uma exposição com imagens como essa. É assim que começa.
– Opa! Mas pera lá! Posso estar incomodado com a imagem, mas deixa ela aí para as pessoa verem e pensarem, certo? Bem… Se bem que do meu desconforto para o meu silêncio ou até apoio para um lance como esse que você disse, Jorge, é um fiapo de cabelo. Inclusive, pensa bem, o que uma pessoa ignorante pode pensar vendo um quadro desse? Que irmãs deviam ser lésbicas? Que era chique, sei lá?!
Jorge entrega o celular para o Antônio fazendo um gesto para que ele resolva o problema dos óculos, esfrega os olhos cansados do esforço. Antônio senta ao seu lado, puxa a mochila para baixo das pernas e solta um suspiro longo e profundo. Nossa energia é quase inesgotável aos vinte e dois anos, mas a viagem dos dois já dura 11 dias parando apenas nos trens, ônibus e breves paradas para comer, algumas vezes em pé. Os dois tem sede de cultura e é a primeira viagem internacional deles.
– Não consigo ver nem que quadro você estava olhando, Antônio! Me resta viajar pelos meus próprios devaneios guiado pelos seus olhos! – E solta sua risada característica, uma mistura de desafio diante do perigo e esperança.
Antônio é mais realista e está preocupado com o amigo, felizmente parece que há três óticas que prometem entregar óculos de grau em menos de 24h na cidade.
Enquanto salva os endereços e as rotas para chegar nelas aproveitando o wi-fi do museu, ele reflete sobre como somos pequenos diante da história da humanidade. Ele não faz ideia do contexto histórico daquele quadro. Não sabe se é uma crítica ou um elogio, se era visto como algo belo ou se estava envolto em uma trama de desafio da moral religiosa… Não… Esse tipo de desafio só viria uns 300 anos mais tarde… Ou teria sido no Iluminismo umas poucas décadas depois? Eram décadas ou séculos depois? Aliás desde quando Jorge tinha memória melhor que a dele?
– Fala sério, Jorge, você tá tão perdido com esse quadro quanto eu, né?
– Hahahahaha! O cego seu eu, mas você pelo jeito é o bobo! Se eu estivesse vendo o quadro certamente estaria tão perturbado quanto você! Mil quinhentos e noventa e quatro, diz a placa, certo? Nem imagino por que eles pintavam mulheres nuas se tocando nessa época!
A risada sonora faz várias cabeças se virarem para os dois. Antônio dá uma cotovelada em Jorge e um “shush”, mas ri também segurando a boca para tentar se controlar.
Baixando o som da voz e se aproximando do Jorge ele conta, como se fosse um segredo proibido.
– Ao fundo, todo escuro, tem um quadro, acho que com uma mulher, essa tá toda vestida costurando ou tricotando, não sei diferenciar. Olha… Tem uma ótica a meia hora de caminhada daqui, vamos lá?
– Por Odin! Vamos logo! Estou me sentindo em uma bolha mágica desfocada do mundo! Amaldiçoado sei lá por quê! … Tô exagerando?
– Um pouco, mas não sou eu que estou quase cego com mais de metade da viagem à frente ainda, né? Mas fico pensando em como deveriam se sentir as mulheres em 1594… Acho que para isso serve a arte, para registrar de alguma forma o tempo, para nos provocar a estudar o que passou e tentar entender do ponto de vista deles e reprocessar do nosso próprio ponto. E você tem razão, aliás até mesmo a arte contemporânea, por mais perturbadora que seja, precisa ser colocada em seu contexto. A nossa vida antes de depois… aliás, nossa visão do mundo antes dessa viagem já era totalmente outra!
– Mas apenas porque tentamos olhar para a viagem com os olhos da viagem que são os olhos das pessoas daqui, das de ontem, das de amanhã… Mas tem horas que dá uma angústia, Antônio, uma sensação que a humanidade caminha em vagões fechados onde não cabe mais de vinte anos e, quando alguém vai parar em outro vagão sem querer vai ter violência.
Os dois atravessam a porta para fora do museu e são recebidos pelo vasto céu azul e pelo calor generoso do Sol, uma brisa sussurra entre as torres e curvas do museu que testemunha a passagem da civilização há séculos e persistirá ainda, quem sabe? por milênios e seguem mais leves para a ótica salvadora.
 

O Conto da Aia – Handmaid's Tale de Margaret Atwood

Imagem: artigo da Margaret Atwood no NYT

Vamos falar do livro, certo? Ainda não assisti a série. E não haverá spoilers nesse texto.
Antes de mais nada Margaret Atwood é dessas pessoas que trata o texto como arte desde a forma como constrói a narrativa até as metáforas que introduz no texto passando pela ambientação e cuidado estético até mesmo com as palavras escolhidas. O Conto da Aia é um desses livros que nos obrigam a separar pelo menos duas categorias de escrita, a literária e a pop.
Vamos evitar o julgamento de valor das duas, certo? O aviso é apenas para ajudar na decisão caso você pense em ler: gosta de uma leitura que flui sem surpresas na forma? Então prepare seu espírito (ou seu viés) para ler esse livro! Gosta de trilhar os mistérios da linguagem em um texto que não reserva as surpresas apenas para a trama? Bem… Ainda assim é preciso preparar o espírito.
O Conto da Aia é uma obra tensa que nos dá uma sensação de sufoco constante, como se andássemos no meio da fumaça de um grande incêndio ou em uma distopia tão opressora que se emana das páginas diante de nos e nos cerca com um véu obscuro.
Talvez isso aconteça não apenas por causa da qualidade da escrita, mas também pela perturbadora proximidade e verossimilhança da história.
A narrativa segue uma linha mais ou menos contínua no tempo ainda que sejam as memórias da protagonista (o que já nos coloca em um suspense constante ao longo da leitura: se ela está contando suas memórias, onde estará agora?) intercalada com memórias mais antigas que nos contam como o mundo chegou até aquele ponto.
E o trajeto que levou a essa distopia realmente foi perturbadoramente bem traçado pela Margaret. Se você não ficar com medo de acordar no dia seguinte e descobrir que a mesma coisa aconteceu é porque você tem sorte de não ver algumas das facetas mais obscuras do mundo que elege alguém como Trump para liderar um dos países mais influentes do mundo.
Vale lembrar que o livro foi publicado em 1985 quando o cenário global que vivemos parecia impossível.
Uma das características que mais admiro nas boas obras é serem escritas para os personagens e não para os leitores e leitoras, quando elas não colocam o apelo comercial acima do tema como cartomantes charlatães empenhadas em nos dizer o que queremos ouvir para lhes dar dinheiro.
Isso torna nossa Aia, Moira, Luke e tantos outras pessoas que surgem na trama tão reais quanto as que conhecemos e que se envolveriam nos mesmos problemas caso uma sociedade como aquela acometesse a civilização.
Portanto não espere um tratamento nem muito delicado, nem muito cruel (algumas histórias recorrem a crueldade excessiva para nos conquistar pelo choque) o que você encontrará é uma distopia como talvez toda distopia deveria ser: assustadoramente próxima e possível.
Sobre o feminismo da obra.
É inevitável falar nisso, aliás é inevitável inserir o tema em praticamente qualquer consideração sobre a nossa cultura, sociedade e economia visto que a igualdade de gêneros está no centro das transformações que precisamos passar.
Francamente, vejo uma extrapolação ao feminismo nessa obra. No sentido que vai além dele e mergulha na questão da razão vs a loucura e em como a segunda pode subjugar a primeira pelo medo. Pelo menos por algum tempo. Um tempo que podem ser décadas e arrastar muitas vidas, criar crateras obscuras em nossa história que, felizmente, servem para nos lembrar dos horrores que podemos criar quando…
Exatamente: quando o quê?
O que realmente aconteceu naquela sociedade?
Vou deixar os detalhes para você descobrir lendo, mas creio que, em termos gerais, você concordará que é o mesmo que vem acontecendo com a nossa: uma disrupção entre as verdades a que estamos acostumados e novas verdades que estamos descobrindo ou construindo.
A civilização, em grande media, é a história da desconstrução e construção de verdades que quase sempre nos conduzem a mais diversidade e liberdades individuais, no entanto, em consequência, também é a história da perseguição da diversidade e dos direitos individuais.
Esse pode não ser o tema central de O Conto da Aia, mas é uma questão que está sob todas as questões de preconceito e de ódio e que também te inspirará durante a leitura.

Global Bubble Parade 2017

Imagem no Instagram

Ipanema, posto nove.
É difícil não achar isso, no mínimo, ingênuo. Os amigos estão achando idiota mesmo.
Temos que fazer sempre um contraponto, não é?
Como um exercício individual, pessoal, de conexão com o que há de bom em nossas vidas e inspiração para que outros sigam o exemplo, até que é interessante. Ingênuo, mas interessante.
É necessário perceber também o que há de bom, tanto para termos esperanças, quanto para fixar objetivos.
No entanto é claro que as​ corporações não deixarão de corromper, os tiranos não deixarão de subjugar, os machistas não deixarão de agredir por causa disso.
Por isso é que nesse dia fui mesmo é para Copacabana reforçando que eu quero votar na manifestação pelas #DiretasJá

Canetas tinteiro de vidro!

O vídeo mostra o processo inteiro da manufatura de uma caneta.
Minha letra sempre foi horrível, talvez por isso eu seja tão digital, mas a arte de escrever sempre me fascinou, tanto pela forma das palavras, que não dependem de papel ou tinta, quanto pela arte da caligrafia e do livro de papel.
Já cheguei a comprar caneta tinteiro, mas… Bem… O que traça as linhas é a mão que conduz a pena, certo? Sempre ficou horrível.
Nunca tinha pensado nas mãos de quem molda a pena, até porque há muito tempo elas são produzidas industrialmente, cirurgicamente.
Fui vendo meio hipnotizado como um bolo de vidro derretido é transformado em uma esguia caneta, que mais parece uma varinha mágica, até que fui surpreendido ao final com as formas como ela usa a caneta!
Quando for ao Canadá preciso comprar uma dessas! Continuarei não sabendo escrever, mas quem sabe de vez em quando alguém com arte nas mãos apareça na minha casa?
O site dela é Gypsy Road – Glass, Silver & Stone. Imagino o que ela faz com os outros materiais!

Entre os cavaleiros do Apocalipse

Imagem:Os quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887)

Passo por um discreto cavalete de metal com diversos folhetos cristãos.
A cada lado uma pessoa com vestes recatadas e olhar tranquilo e convidativo.
Coroando o cavalete um cartaz com uma imagem como essa e a pergunta “Você sabe a influência que os quatro cavaleiros do apocalipse exercem sobre a sua vida?”
A alma transgressora e imoral forma imediatamente a imagem profana e o desejo de abordar aquelas pessoas dizendo algo como:
“Eu sei bem… Minha vida obscura e cercada de sofrimento e morte até os dias que sento em um bar, peço uma xícara com chá de maçã e canela bem quente, uma torta de nozes e recebo os outros três amigos para falar amenidades. São os momentos de luz e alegria para os meus dias e de descanso para o meu cavalo.”
Logo depois me lembro que a simbologia dos quatro cavaleiros é muito útil e real, que a fome, a peste, o conflito e o encerramento da vida estão presentes de diferentes formas em quase todos os nossos dias.
E não falo do medo da morte, da doença que está sempre assolando alguém próximo a despeito de todos os nossos avanços, da discórdia que inicia conflitos a todos momento ou da fome que assola bilhões de humanos.
Falo da nossa rejeição à natureza que nos leva a ver os cavaleiros como entidades malignas, acabamos por ver a própria realidade, o mundo em que vivemos como maligno.
Somos como crianças mimadas que não admitem experiências desagradáveis e as associam a demônios, a um mal transcendental que corrompe nosso Éden.
É… No final das contas talvez os cavaleiros possam ser bons companheiros de bar…

Temos que falar de 13 reasons why (antes de ler)

Até agora só li o primeiro capítulo, mas percebi que há uma urgência em falar nisso por causa da série da Netflix que muita gente está vendo. Umas achando importante ver, outras com muito medo.
Tem muita coisa que podemos falar sobre o assunto tendo visto apenas o primeiro episódio ou lido o primeiro capí­tulo, mas antes vou falar da minha própria experiência com realidades difíceis de encarar.
Eu tinha uns 19 anos quando peguei para ler O Sapateiro, da mesma autora de Sybil, Flora Rheta Schreiber.
Era um livro sobre um assassino serial que acreditava receber mensagens divinas.
Nesse perí­odo eu estava questionando a minha religiosidade. Até que ponto ela não era um delírio semelhante ao daquele assassino serial claramente perturbado?
Não dei conta de ler e procurei uma psicanalista (infelizmente não lembro o nome dela e já deve estar aposentada com uns 70 anos.
Pois essa é a minha opinião: se um filme, série ou livro te perturba a ponto de você não conseguir assistir (e vejo pessoas com medo de sequer tentar assistir 13 reasons why) então você muito provavelmente devia estar procurando uma psicanalista (e não se sinta mal por isso! Todos devíamos procurar psicanalistas. O mundo é que tá maluco, não nós)
Porque a história (qualquer história) é um ambiente controlado que te permite explorar coisas que podem acontecer de fato com você em ambientes totalmente descontrolados.
Desconfio que a maioria das pessoas que tenho visto com medo de tentar ver a série não estão confusas como eu estava aos 19 anos e estão apenas inseguras em relação à s própria estabilidade.
Eu mesmo não estava tão confuso quanto temia.
Nós temos esse mito, não é? Que basta mostrar um jogo violento para alguém e a pessoa será convertida em uma pessoa brutal. Aliás, mais ou menos na mesma época alguns amigos diziam que existia um livro que enlouquecia quem o lia! Acho que era o Neuromancer. Se você já leu deve estar rindo. Ninguém enlouquece lendo Neuromancer.
Nossa identidade não é tão frágil assim.
13 reasons why fala de uma realidade muito séria e presente. Conheci várias pessoas que passaram por isso. Algumas delas não sobreviveram, outras eu pude ajudar e poderia ajudar muito mais se tivesse lido mais obras como essa. Tenho certeza que várias pessoas que eu conheço estão vivas porque foram ajudadas por alguém. Ah! Claro, há quem consiga se salvar sozinha e histórias podem ajudar muito, eu mesmo fui salvo por várias!
Mas vamos ao que sabemos da história depois de ver apenas o trailer ou ler o primeiro capí­tulo.
A protagonista se suicida, mas antes deixa sete fitas K7 com 13 dos 14 lados gravados.
Nessas fitas ela conta a história de como ela foi sendo envolvida pela desistência da vida por causa de pequenas e grandes pressções cotidianas e comuns que muitos de nós sofrem, que muitos de nós impõe a outras pessoas.
A voz da protagonista, pelo menos no livro, é espirituosa, engraçada e até alegre. Ela poderia ser qualquer pessoa que você ou eu conhecemos.
A propósito. Já passei por isso algumas vezes: receber a notícia do suicí­dio de alguém que nunca desconfiei que era outra coisa além de uma pessoa feliz e de bem com a vida.
Esse é um primeiro ponto que já nos permite sair da sinopse da história e passar para as opções do autor, Jay Asher.
No mundo real uma pessoa prestes a se suicidar teria aquela leveza? Duvido muito. Teria a iniciativa de gravar 13 lados de fitas K7 (people menos seis horas e meia de gravação)? Extremamente improvável.
Vejo isso como uma opção.
13 reasons why não é uma obra realista. Bem, pelo menos suponho que não.
Ela é, no mínimo suavizada. Pode ser consciente para evitar que a culpa do suicí­dio recaia sobre a protagonista “perturbada”. Esse é o perfil comum dos suicidas em filmes e livros. É algo, aliás, que certamente deve tornar as coisas muito mais difí­ceis para quem está diante desse problema.
Também pode ser suavizado para tentar evitar que o leitor ou leitora que está seguindo o mesmo caminho não acabe ainda mais envolvido ou envolvida pelos problemas. Conheço quem tenha o perfil da protagonista e que sentiu a obra como um processo de libertação.
Talvez venha daí o interesse na história. Muitos de nós se sentem libertados da culpa de nos sentirmos como a protagonista: não é fraqueza.
Sim. Isso é perigoso, mas desde a primeira página o suicídio é colocado como um desastre, de forma alguma uma solução viável.
Claro que essa suavização também preocupa algumas pessoas que receiam que o suicídio acabe visto como algo leve, como uma opção até poética.
Não é o que me parece pelo primeiro capítulo, mas realmente há muitas obras assim, começando pelo Pequeno Príncipe. São numerosos os filmes, séries e livros que envolvem o suicídio em uma aura de nobreza ou julgando a pessoa pensando em nele como alguém fraco, reforçando fatores que a levaram até ali.
E esse é um segundo ponto: infelizmente a industria de entretenimento muitas vezes não tem compromisso com a estabilidade emocional ou com o respeito aos outros e isso dificilmente mudará pois é um preço que nossa civilização vem decidindo pagar em troca de liberdade.
Mas, veja bem, nunca vi estudos revelando que podemos ser desestruturados por alguma leitura.
Como aconteceu comigo lá no início desse post, as histórias podem nos revelar algo que está em processo. Pode sim piorar tudo, mas também pode nos salvar.
Pelo que tenho visto já no início do livro e mais ainda nas conversas online e offline 13 reasons why está sendo um importantíssimo fator de reflexão e tomada de consciência do problema.
Claro que nos assustamos ao ver uma história sobre suicídio, muito embora não nos incomode tanto as numerosos histórias onde ele (ou assassinato) é tratado irresponsavelmente.
Há pelo menos uma boa razão para isso: TV e livros são para nos distrair e não para refletir sobre coisas tão sérias assim. Vi até gente dizendo que “a série não me pegou”. Não é para pegar! É para outro tipo de relação.
A Netflix tem isso em seu DNA. É uma produtora de conteúdo para as massas (bem, ela não é de nicho) com produções de nicho. Como aquelas produções altamente experimentais que a Globo colocava à  meia noite, só que passando na hora que qualquer um quiser.
Me parece que esse e o ponto de corte: essa história não é um Jogos Vorazes ou Divergente (ambas aliás tratam irresponsavelmente de suicídio e violência). Ela está aqui para trazer à baila o astronômico problema de uma sociedade em que a perversidade passa despercebida, onde podemos até pensar que a vida não é para amadores e que é necessário ser cascudo ou cascuda.
Estamos tão dessensibilizados que essas mesmas questões estão aí­ em uma infinidade de obras até infantis sem notarmos, mas em 13 reasons está incomodando e isso é bom!
É como aquele medo que nos dá quando alguém diz que a rua está escura e parece perigosa e achamos que isso pode atrair o perigo. Não pode. O que atrai o perigo é não reconhecer que a rua está perigosa e não mudarmos nosso rumo.
Até aqui o que estou vendo é 13 reasons why despertar muita gente para o perigo ao nosso redor e das pessoas que amamos (ou seja, todas, afinal somos todos irmãos e irmãs nessa ainda breve jornada da humanidade).
Mais informações:
FACTORES DE RISCO E SITUAÇÕES DE RISCO DE SUICÍDIO (PDF) DE ACORDO COM A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE
Os comportamentos suicidas são mais comuns em certas
circunstâncias devido a factores culturais, genéticos,
psicossociais e ambientais. Os factores de risco gerais incluem:
• Estatuto sócio-económico e nível de educação baixos;
perda de emprego;
• Stress social;
• Problemas com o funcionamento da família, relações
sociais, e sistemas de apoio;
• Trauma, tal como abuso físico e sexual;
• Perdas pessoais;
• Perturbações mentais tais como depressão, perturbações
da personalidade, esquizofrenia, e abuso de álcool e de
substâncias;
• Sentimentos de baixa auto-estima ou de desesperança;
• Questões de orientação sexual (tais como
homossexualidade);
• Comportamentos idiossincráticos (tais como estilo
cognitivo e estrutura de personalidade);
• Pouco discernimento, falta de controle da impulsividade, e
comportamentos auto-destrutivos;
• Poucas competências para enfrentar problemas;
• Doença física e dor crónica;
• Exposição ao suicídio de outras pessoas;
• Acesso a meios para conseguir fazer-se mal;
• Acontecimentos destrutivos e violentos (tais como guerra
ou desastres catastróficos).

Quando o mar virou Rio – Mbaraka

Imagem: Roney Belhassof mesmo

Aberta de 24 de março a 28 de maio de 2017 no Museu Histórico Nacional (rua Marechal Âncora, perto do aeroporto Santos Dumont) essa exposição conta a história do Rio de Janeiro por uma ótica viva que nos coloca em contato com a cultura do Rio.
A relação dos moradores da cidade (afinal não só os cariocas moram no Rio) e o mar mudou de formas surpreendentes. Pelo menos me surpreendi com várias informações da exposição.
O tamanho é ótimo, nem grande demais, nem pequena, a viagem nos leva desde a descoberta da cidade até os anos atuais falando sobre a origem dos padrões dos calçamentos de Copacabana, do esquecimento das periferias, dos tempos em que as praias tinham acesso restrito.
Está lembrada também a abertura dos conceitos de gênero nas décadas de 60 e 70 (quando eu era criança, lembro bem) nos lembrando que o caminho de conciliação com a diversidade humana que ainda trilhamos hoje com dificuldade não é novo e talvez até já tenha vivido dias melhores.
Tenho que dizer que fui tomado por uma certa nostalgia. Resultado da combinação de tempos mais alienados quando as lamas do poder corriam pelo escuro com a visão da criança que enxerga um mundo muito mais leve que o do adulto, nem que seja por tudo ser-lhe novo no que se descortina a cada dia.
Recomendo fortemente a visita!

Reagindo a preconceito com preconceito: coisas que irritam

Imagem: Liz Bridges

Na série “Coisas que incomodam”

Preconceito seletivo
“Os héteros vieram agredir as minas”

Aha! Mas pode parar se você está pensando “Feministas odeiam homens” que você está errando tanto quanto as pessoas acima!
Claro que irrita uma frase contra um preconceito construindo outro, afinal esperamos que a pessoa que seja contra um preconceito seja contra os preconceitos em geral. Mas não é assim. Todos nós podemos ter essa cegueira.
Mas não use isso para desqualificar uma causa, o que aliás é uma falácia vexaminosa: olha, tem feminista que odeia homem, feminismo é odiar homem.

  1. Desenvolver uma sociopatia contra um grupo agressor infelizmente é um dos efeitos da agressão constante e é compreensível;
  2. Da mesma forma que o distúrbio de que quem discrimina mulheres é o ódio e não a heterossexualidade (que sequer é distúrbio) o distúrbio (provavelmente trauma) de quem tem estereotipa os héteros (para usar o exemplo acima) não tem nada a ver com feminismo.

Agora sim eu posso falar por que me irrita.
Se realmente queremos fazer algo para dissolver preconceitos e estereótipos temos que identificá-los e dissolvê-los em nós mesmos, do contrário acabaremos alimentando uma polaridade que não existe e criando um conflito que estimula a ideia de que um é inimigo natural do outro (brancos e negros, homens e mulheres, heterossexuais e LGBT, direita e esquerda, uma religião e outra religião…) quando somos complementares, quando somos todos parte de uma infinita possibilidade de diversidade.
Nos tornamos agentes do preconceito…
E isso me irrita!